top of page

Esses dias ando meio troncha. Testo o chão cem vezes antes de pisar. Do lado de fora a vida deveria ter parado, agora mais do que nunca. Todos andam procurando algo pra não se responsabilizar. O sino da igreja soa, mas não convida ninguém. Se fala sobre limpeza, se pensa sobre clausuras, se temem todos os ares desconhecidos. A vida inspirou e se inflou de ausência. Os desencontros são lembrados com carinho pela primeira vez. Não há respostas. Não deve haver respostas por ainda um ano. Todos ainda fingem ser de aço, mas tentam manter uma distância considerável. Ainda existem os que não compreendem nada, eles sempre existirão. Os malditos números só crescem e crescem, assim como as bocas caem em choque. A inevitabilidade do fim chegou, tá aí, sentada no sofá. Mas meu cachorro continua correndo atrás da bolinha como um bom cachorro. Os cafés são mais fortes e fora de hora, mas mantém o mesmo aroma. O que há com o céu que insiste em se abrir todo azul? O futuro é nebuloso. Quem não rumina incerteza antes de dormir deveria começar. Meu avô ainda limpa a piscina. Diz que é preciso limpar as piscinas. Que sempre é preciso trocar o óleo do carro. Talvez não seja preciso arrumar a cama pela manhã, mas se deve abrir as janelas. Não queremos que nada mofe nesse tempo. As informações assustam como é da natureza delas. Minha avó meio calma declara que assim como todo o resto isso também passará.  Insisto que o importante é que quem tá longe existe. Não tá aqui mas não deixa de estar. Por fim a noite esperançosamente parece até demorar mais a cair. Nesses dias que nunca passam. Agora que a rotina corre solta a gente tem mais tempo. Mais tempo pra quem? O sujeito está em foco como nunca antes. Os pequenos mimos se tornam sobrevivência. Minha tia me ensina a assar bolos com a paciência que ela nunca teve.  Nesses dias que nunca, nunca passam.

 

​

Seg, 4 de Maio de 2020

 

 

​

​

​

​

​

Fui ao mercado e antes de entrar tudo foi mergulhado em álcool em gel. O mundo agora anda super preocupado com a limpeza. Com a organização. Em manter as coisas afastadas. Eu tentei me organizar esse ano, mas o caos se estabeleceu ainda mais que o costumeiro. Perdi todos os planos. Penso que devia me organizar com o que tenho nas mãos, a carne, as tarefas, as pequenas pressões cotidianas e gigantes. Mas assim como o mundo, ando tendo problemas de ordenação. Digo que faço o que posso e que é o que posso fazer, mais nada. A quarentena vive nesse mais. A desculpa é que ninguém vai me envergonhar por não ultrapassar a lombada dessa vez. O obstáculo desse tempo suspenso agora é de todos nós. Não posso me permitir ser pressionada mais do que a iminente morte já faz. Pela primeira vez o mundo tem a mesma inépcia pra se recompor que eu sempre tive. A diferença entre nós é que pra mim nada disso é novo. Agora tenho companhia na suspensão do tempo. Tá todo mundo preso também. E parece que ainda demora pra que caminhemos em frente. Mas tenho mais fé, mais pelos outros que por mim. Temos que acreditar que tudo está o mais limpo possível. Mais cedo ou mais tarde o mundo volta a girar e eu corro atrás.

​

​

Sex, 8 de Maio de 2020

 

 

​

​

​

​

​

Com os dias  veio o sentimento de engasgo, metade no estômago e metade no peito. Meu avô está na cama pela primeira vez em anos. Um homem forte. Derrubado pela clausura, por ser subitamente inutilizado depois de todos esses anos passando muito mais tempo na rua que em casa. Eu digo que a quebra de rotina também causa fraqueza, mas ele é de outro tempo e não acredita. Me consultei online essa semana e posso dizer que o estômago embrulha igual. Expliquei cuidadosamente que o vírus dá medo, mas mais medo tenho de enfrentar o mundo lá fora. Ou o que sobrará dele. Os mundos particulares continuam girando. Ontem mesmo um deles deu um encontrão no meu. Giraram em órbitas opostas, mas o atrito só pôde ser documentado por mensagens. Agora escrevo o dia todo para me comunicar, então quando tento escrever a disposição mingua. Parece que a máscara impede todas as minhas palavras. Sinto que estou numa daquelas quedas tão livres que nunca acabam, mas agora tenho tempo de lavar o rosto devidamente três vezes ao dia. O estranho é que aos poucos o sentimento de estar em casa vai encolhendo. Suponho que no futuro todos esses dias iguais serão encarados como breves, e esse será o maior equívoco da minha memória. Mas o que haverá pra lembrar? Meu pai andando inquieto pelo corredor. Meus cachorros observados numa tentativa de entender como sempre preencheram dias parecidos com esses. O maior descaso do mundo às previsões do tempo. Os projetos que entrei de cabeça, mas acabei mergulhando na inépcia dos meus relacionamentos.  Essas coisas que preenchem o tempo mas não preenchem mais ninguém. 

​
 

Quinta, 14 de Maio de 2020.

​
 

 

​

​

​

​

Em meio a esse hiato houve uma fermentação.  Os problemas urgentes não perderam a exigência. Os dilemas estruturais se aprumaram até romper a superfície. O momento de revolta e de mobilização se instaurou e todos se viram na obrigação de declarações claras, antirracistas e antifascistas. Parecia óbvio que depois da fermentação a massa não pode mais descansar, é necessária a revolução... mas isso também passou.

O que permanece  é que a gente se sente menor, cada vez menos, enquanto crescem as massas lá fora sob o Sol. A negação continua, a ineficiência que se torna mais e mais criminosa. A preocupação da nação individualista é que o país precisa se reerguer. Mas nossas curvas nunca caíram. O isolamento se flexibiliza, a morte não. Mas a decisão dia a dia é olhar pro outro lado. 

Com tudo isso parece egoísta essa saudade que não dá trégua. O olhar gentil parece não encontrar lugar. A gente se repreende a cada vez que deseja sentar numa mesa ao ar livre, brindando a sexta-feira. Os dias se mesclam uns nos outros e a apatia está aí. Parece parte do vírus. Com as medidas bárbaras do governo e o contato reduzido ao virtual é preciso mais do que nunca se manter humano. E ainda assim distante. Tenho pra mim que cada dia que passa é um dia mais perto de quem eu amo. Assim a gente continua, numa contagem regressiva que ainda não tem horizontes.

​

​

Terça, 16 de Junho de 2020.

UM DIA

Alice Seixas

A série de textos reflete sobre mundos - internos e externos - profundamente afetados pela pandemia e o isolamento social. Mergulhada em um progresso de registro totalmente novo, marcado pela falta de trocas interpessoais que sempre foi necessária  para meu processo criativo e poético, contemplo um mundo isolado, trago relatos íntimos e ao mesmo tempo coletivos sobre a crise dos tempos atuais.
bottom of page